Um portal pode publicar uma reportagem relevante, bem apurada e otimizada para mecanismos de busca e, ainda assim, perder parte de sua audiência. Isso acontece quando algumas pessoas encontram barreiras para localizar, compreender ou consumir o conteúdo.
Um texto com letras pequenas pode afastar usuários com baixa visão. Um vídeo sem legendas deixa de atender quem não consegue ouvir o áudio ou está em um ambiente onde o som não pode ser reproduzido. Uma matéria disponível somente para leitura exige atenção visual durante todo o consumo e não acompanha quem está dirigindo, caminhando ou realizando outra atividade.
Atender diferentes públicos não significa criar dezenas de versões do portal nem tentar satisfazer todas as preferências individualmente. Significa construir uma experiência flexível, na qual mais pessoas consigam acessar a mesma informação com autonomia.
Para publishers, essa abordagem não deve ser vista apenas como uma obrigação técnica. Ela também pode representar uma oportunidade de ampliar o alcance das matérias, aumentar as ocasiões de consumo e desenvolver um relacionamento mais consistente com os leitores.
O que significa atender diferentes públicos em um portal de notícias?
Atender diferentes públicos é reconhecer que as pessoas não acessam notícias da mesma maneira. Elas possuem capacidades, dispositivos, contextos, preferências e níveis de familiaridade digital diferentes.
Alguns leitores utilizam um computador e conseguem dedicar atenção total ao texto. Outros chegam pelo celular, durante um deslocamento, com pouco tempo disponível. Há pessoas que precisam ampliar a tela, navegar somente pelo teclado, utilizar um leitor de tela ou acompanhar vídeos por legendas. Também existem usuários que simplesmente compreendem ou retêm melhor uma informação quando podem ouvi-la.
Uma experiência inclusiva considera essas diferenças desde a produção editorial até o desenvolvimento do site. Entre as práticas possíveis estão:
- Utilizar títulos, subtítulos e parágrafos bem organizados.
- Permitir a ampliação do texto sem quebrar a página.
- Manter contraste adequado entre texto e fundo.
- Escrever textos alternativos para imagens relevantes.
- Oferecer legendas e transcrições para conteúdos audiovisuais.
- Garantir que menus, botões e formulários funcionem com teclado e tecnologias assistivas.
- Disponibilizar alternativas como áudio para o conteúdo escrito.
- Evitar anúncios, janelas e elementos flutuantes que impeçam a leitura.
Essas decisões reduzem barreiras sem limitar a experiência dos demais usuários. Em muitos casos, uma melhoria criada para um grupo específico acaba tornando o portal mais simples e conveniente para todos.
Quem pode estar sendo excluído da audiência do seu portal?
Quando se fala em acessibilidade, é comum pensar somente em pessoas cegas ou surdas. Esses públicos são fundamentais, mas a diversidade de necessidades é muito maior.
Segundo dados da PNAD Contínua de 2022, divulgados pelo IBGE, o Brasil tinha 18,6 milhões de pessoas com deficiência com dois anos ou mais, o equivalente a 8,9% dessa população. O Censo de 2022 também registrou mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais.
O envelhecimento pode estar associado a mudanças na visão, audição, coordenação motora e facilidade para utilizar determinadas interfaces. Isso não significa que toda pessoa idosa tenha uma deficiência, mas mostra por que fontes legíveis, controles claros e diferentes maneiras de acessar a informação são cada vez mais relevantes.
Além desses grupos, um portal pode criar dificuldades para:
- Pessoas com baixa visão, daltonismo ou sensibilidade a determinados contrastes.
- Pessoas com dislexia, déficit de atenção ou outras dificuldades de leitura.
- Usuários com limitações motoras que não conseguem utilizar o mouse com precisão.
- Pessoas com pouca familiaridade com sites, aplicativos e interfaces digitais.
- Leitores que utilizam aparelhos antigos ou telas pequenas.
- Usuários com conexão lenta ou instável.
- Pessoas temporariamente impedidas de utilizar uma das mãos, enxergar com conforto ou ouvir um conteúdo.
- Leitores que estão em ambientes barulhentos, sob iluminação intensa ou realizando outra atividade.
Nem todas essas pessoas se identificam como usuários de recursos de acessibilidade. Elas apenas percebem que uma página é difícil de usar e procuram outra fonte de informação.
Esse é um ponto importante para o publisher. Muitas barreiras não aparecem como uma reclamação. O usuário simplesmente abandona a matéria.
Como barreiras digitais podem reduzir a audiência?
A perda de audiência nem sempre acontece porque o conteúdo é irrelevante. Em alguns casos, a pessoa tinha interesse na matéria, mas não conseguiu consumi-la com conforto.
Imagine alguns exemplos comuns:
- O leitor amplia a tela, mas o texto fica escondido sob um anúncio.
- Uma pessoa navega pelo teclado, mas não consegue abrir o menu ou fechar uma janela.
- O vídeo contém a informação principal da notícia, porém não oferece legenda nem transcrição.
- O título promete responder a uma dúvida, mas a página apresenta tantos elementos simultâneos que o conteúdo principal fica difícil de encontrar.
- O usuário deseja acompanhar uma reportagem longa, mas não pode permanecer olhando para a tela naquele momento.
- Uma pessoa utiliza leitor de tela, mas encontra botões sem nomes e imagens sem descrição.
Cada barreira reduz a possibilidade de aquela visita se transformar em leitura, reprodução, cadastro, retorno ou assinatura. Quando o problema se repete em todas as páginas, ele pode afetar uma parcela significativa da audiência potencial.
Por isso, a discussão não deve começar apenas com a pergunta “quantas pessoas utilizam determinado recurso?”. Uma questão mais útil é “quantas oportunidades de consumo o portal perde por oferecer uma única forma de acesso?”.
Acessibilidade beneficia apenas pessoas com deficiência?
Não. A acessibilidade é essencial para pessoas com deficiência, mas muitas de suas práticas melhoram a experiência de um público mais amplo.
O W3C, organização responsável por referências internacionais de acessibilidade na web, destaca que soluções inclusivas também ajudam pessoas com limitações temporárias e circunstanciais. Uma pessoa pode ter quebrado o braço, esquecido os óculos, estar sob luz intensa ou acessar a internet em uma situação na qual não consegue utilizar determinado sentido ou dispositivo com conforto.
Legendas são indispensáveis para parte das pessoas surdas ou com deficiência auditiva, mas também atendem quem assiste a um vídeo em um ambiente barulhento ou silencioso. Um bom contraste ajuda usuários com baixa visão e também melhora a leitura do celular sob o sol. Botões maiores beneficiam pessoas com limitações motoras e reduzem erros de toque em telas pequenas.
Da mesma forma, disponibilizar uma matéria em áudio pode ajudar pessoas com baixa visão, dislexia ou dificuldades de leitura, mas também atende quem prefere ouvir notícias no carro, durante uma caminhada ou enquanto realiza tarefas domésticas.
Esse efeito ampliado é um dos motivos pelos quais acessibilidade, usabilidade e experiência do usuário estão tão próximas. Ao remover uma barreira, o portal frequentemente melhora a experiência de várias pessoas ao mesmo tempo.
Como diferentes formatos criam novas oportunidades de consumo?
O texto continua sendo a base de grande parte do jornalismo digital. Ele é pesquisável, atualizável, escaneável e permite que o leitor avance no próprio ritmo. No entanto, não precisa ser a única forma de acesso à informação.
Uma mesma reportagem pode oferecer diferentes portas de entrada:
- Texto completo para quem deseja ler e consultar detalhes.
- Resumo para quem precisa compreender rapidamente os pontos principais.
- Áudio para quem prefere ouvir ou não pode acompanhar a tela.
- Vídeo com legendas para quem busca uma apresentação visual.
- Transcrição para tornar o conteúdo audiovisual consultável e pesquisável.
- Infográfico acompanhado de uma explicação textual dos dados relevantes.
Essa estratégia não exige que todas as matérias recebam todos os formatos. O portal pode priorizar reportagens longas, análises, colunas, conteúdos de serviço e temas com maior potencial de consumo recorrente.
O ganho está em permitir que a notícia se adapte a diferentes momentos. Uma pessoa pode descobrir a matéria por uma busca, iniciar a leitura e optar pelo áudio quando precisar sair. Outra pode chegar por um vídeo, consultar a transcrição e depois acessar a reportagem completa.
Quanto mais flexível for a experiência, maior será o número de situações em que o conteúdo poderá fazer parte da rotina do público.
Qual é a relação entre acessibilidade e engajamento?
Engajamento não deve ser confundido apenas com tempo de permanência. Para um portal, ele pode se manifestar de várias formas: leitura de uma matéria, reprodução de um áudio, conclusão de um vídeo, navegação para outro conteúdo, retorno ao site, cadastro, compartilhamento ou assinatura.
Uma experiência mais acessível pode contribuir para essas ações porque reduz obstáculos entre o interesse e o consumo. Quando o texto é legível, os controles são compreensíveis e existem formatos adequados a diferentes contextos, o usuário tem mais condições de continuar a interação.
Isso não significa que adicionar um recurso produzirá automaticamente aumento de audiência ou melhoria no posicionamento em buscadores. Os resultados também dependem da qualidade editorial, relevância, distribuição, desempenho técnico e adequação da solução ao comportamento do público.
O ponto é que uma barreira pode encerrar uma visita que tinha potencial. Removê-la cria a oportunidade para que o conteúdo seja efetivamente consumido.
Em vez de tratar acessibilidade como uma ação isolada, o portal pode relacioná-la a objetivos editoriais e comerciais, como:
- Alcançar leitores que hoje não conseguem consumir determinadas matérias.
- Aumentar as ocasiões em que o conteúdo pode ser acessado.
- Melhorar a experiência em dispositivos móveis.
- Fortalecer a confiança e a reputação do veículo.
- Estimular o retorno de usuários que encontram uma experiência conveniente.
- Oferecer mais valor para leitores cadastrados ou assinantes.
Como uma experiência inclusiva fortalece a relação com o público?
Um portal de notícias não disputa apenas cliques. Ele disputa atenção, confiança e espaço na rotina das pessoas.
Quando o usuário percebe que consegue navegar, compreender o conteúdo e escolher como consumi-lo, a relação deixa de ser apenas funcional. O veículo demonstra que considerou diferentes necessidades na construção de sua experiência.
Esse cuidado é especialmente relevante para organizações jornalísticas. O acesso à informação faz parte do compromisso público do jornalismo, e uma barreira digital pode impedir que uma pessoa acompanhe assuntos que afetam sua cidade, seus direitos, sua saúde ou suas decisões financeiras.
Uma experiência inclusiva também pode diferenciar o portal em um cenário no qual muitos sites oferecem matérias semelhantes. A qualidade não está apenas no texto publicado, mas em todo o caminho percorrido até que a informação chegue ao leitor.
Como medir se o portal está atendendo novos públicos?
Não existe uma única métrica capaz de provar que o portal se tornou mais inclusivo. O acompanhamento deve combinar dados quantitativos, testes de uso e manifestações dos próprios usuários.
Alguns indicadores podem ajudar:
- Uso de recursos de áudio, legendas, transcrições ou modos de leitura.
- Quantidade de reproduções iniciadas e concluídas.
- Percentual ouvido em matérias de diferentes tamanhos.
- Interações realizadas em celular, computador e outros dispositivos.
- Taxa de retorno dos usuários que utilizam formatos alternativos.
- Navegação para outras matérias após a interação.
- Desempenho por editoria, horário e tipo de conteúdo.
- Relatos enviados por pessoas que encontraram barreiras ou perceberam melhorias.
É importante analisar tendências e comparações, e não apenas números absolutos. Uma reportagem longa pode apresentar um comportamento diferente de uma nota curta. Notícias publicadas pela manhã podem ter mais consumo em áudio durante deslocamentos, enquanto colunas podem receber reproduções em outros horários.
O portal também deve evitar medir somente a adoção do recurso. Se um player recebe poucos cliques, por exemplo, pode haver problemas de posição, identificação, velocidade de carregamento ou qualidade da voz. A métrica precisa ser interpretada dentro da experiência completa.
Pesquisas com leitores e testes com pessoas com deficiência ajudam a revelar dificuldades que as ferramentas de analytics não conseguem explicar.
Por onde começar a atender diferentes públicos?
O primeiro passo é identificar as barreiras que impedem ou dificultam o acesso ao conteúdo. Não é necessário corrigir todo o portal de uma só vez, mas é importante estabelecer prioridades e responsáveis.
Uma sequência possível é:
- Avaliar a página inicial, as matérias, a busca, os menus e os formulários.
- Testar a navegação apenas com o teclado.
- Verificar a experiência com leitores de tela e ampliação de texto.
- Revisar contraste, foco visível e tamanho dos controles.
- Incluir textos alternativos, legendas e transcrições no fluxo editorial.
- Reduzir interrupções que encobrem ou fragmentam a matéria.
- Selecionar conteúdos para testar formatos alternativos, como áudio.
- Definir eventos e métricas para acompanhar a utilização.
- Criar um canal para que o público relate barreiras.
- Incluir pessoas com deficiência nos testes sempre que possível.
Para organizar essa avaliação, consulte também o artigo Checklist de acessibilidade para portais de notícias: 15 pontos para avaliar.
Oferecer áudio torna um portal totalmente acessível?
Não. O áudio é uma alternativa de consumo importante, mas não substitui os demais recursos de acessibilidade.
Um player pode transformar o texto de uma matéria em voz. Já um leitor de tela permite que a pessoa navegue por menus, títulos, links, formulários e diferentes regiões da página. São recursos com funções distintas.
Da mesma forma, o áudio não substitui textos alternativos para imagens, legendas em vídeos, contraste adequado, estrutura semântica, navegação por teclado ou testes com usuários.
O recurso deve integrar uma estratégia mais ampla. Para entender essa diferença em detalhes, leia Áudio torna um site acessível? Benefícios e limites do leitor de texto.
Como o áudio pode ampliar as possibilidades de consumo de notícias?
O áudio permite que a matéria acompanhe o público em situações nas quais a leitura da tela não é conveniente. Isso pode ocorrer durante um deslocamento, uma caminhada, uma tarefa doméstica ou um momento de descanso visual.
Para pessoas com baixa visão, dislexia ou dificuldade para acompanhar textos longos, a versão falada também pode representar uma alternativa relevante. Alguns usuários podem preferir ouvir enquanto acompanham o texto na tela. Outros podem utilizar somente o áudio.
Para oferecer uma boa experiência, o portal precisa observar aspectos como:
- Naturalidade e clareza da voz.
- Pronúncia de nomes próprios, siglas, números e palavras estrangeiras.
- Controles acessíveis para reproduzir, pausar e alterar a velocidade.
- Funcionamento em celulares e diferentes navegadores.
- Seleção correta das partes da página que devem ser lidas.
- Atualização do áudio quando a matéria é modificada.
- Integração com métricas para acompanhar o uso.
Quando o áudio é gerado automaticamente, a redação não precisa gravar cada matéria. Isso torna possível oferecer a alternativa em grande escala, inclusive em portais com alto volume de publicação.
Como o ReadMe ajuda portais a oferecer conteúdo em áudio?
O ReadMe transforma automaticamente matérias de portais de notícias em áudio com vozes naturais em português brasileiro. A solução acompanha as atualizações do conteúdo e permite configurar quais partes da página devem ou não ser lidas.
O player oferece controles de reprodução e velocidade, pode ser personalizado para a identidade visual do veículo e permite acompanhar interações por meio de métricas integradas. Dessa forma, o portal cria uma nova possibilidade de consumo sem adicionar uma etapa de gravação à rotina da redação.
O áudio não é apresentado como uma solução completa de acessibilidade. Ele funciona como parte de uma experiência inclusiva que também deve considerar estrutura da página, contraste, teclado, leitores de tela, imagens, vídeos e clareza editorial.
Se o seu portal deseja entender como as matérias podem funcionar em áudio, solicite uma demonstração do ReadMe com um conteúdo real do próprio site.
Conclusão
Atender diferentes públicos não é apenas adicionar recursos a uma página. É reconhecer que a mesma informação pode precisar ser apresentada e acessada de maneiras diferentes.
Ao reduzir barreiras e oferecer alternativas de consumo, um portal amplia as possibilidades de que suas matérias sejam encontradas, compreendidas e incorporadas à rotina dos leitores. Isso pode favorecer audiência, engajamento, confiança e relacionamento, embora os resultados devam ser acompanhados com métricas e testes.
Uma experiência mais inclusiva beneficia pessoas com deficiência, idosos, usuários com limitações temporárias e também quem simplesmente prefere consumir notícias em outro formato ou contexto.
O objetivo não é criar um portal diferente para cada público. É construir um portal melhor, mais flexível e capaz de entregar informação para mais pessoas.
Fontes de referência
IBGE, PNAD Contínua: Pessoas com deficiência 2022: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/37317-pessoas-com-deficiencia-tem-menor-acesso-a-educacao-ao-trabalho-e-a-renda
IBGE, Censo Demográfico 2022, população por idade e sexo: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/22827-censo-demografico-2022.html
W3C, Introdução à acessibilidade web: https://www.w3.org/WAI/fundamentals/accessibility-intro/pt-BR
W3C, Diversidade de habilidades e barreiras: https://www.w3.org/WAI/people-use-web/abilities-barriers/pt-BR
Governo Digital, Acessibilidade Digital: https://www.gov.br/governodigital/pt-br/acessibilidade-e-usuario/acessibilidade-digital